quinta-feira, 27 de maio de 2010

"Algum Lugar" no Prêmio Portugal Telecom






















Semifinalista do Prêmio Portugal Telecom, Algum Lugar é o primeiro romance de Paloma Vidal, que publicou os livros de contos A duas mãos (7Letras) e Mais ao Sul (Língua Geral).  Na obra, a mudança do Rio de Janeiro para Los Angeles força um casal a lidar com o vazio e a solidão, encarando as próprias fragilidades, desejos, angústias. A cada passo, a narradora se esforça para conquistar a cidade de cartografia exata, impenetrável, de paisagens que deslizam entre o familiar e o estranho , o real e o irreal.  No estranhamento das línguas e culturas que se misturam,  Algum Lugar nos conduz para dentro de uma geografia íntima onde vão se diluindo as fronteiras entre personagem e autora, entre fato, sonho e ficção. 
Leia aqui um trecho de Algum lugar
"O outono começava a dar sinais no hemisfério norte quando meu voo pousou na cidade, às 10:05. Passei pela imigração sem problemas, mostrando meu visto de estudante, e resgatei a bagagem numa das dezenas de esteiras do desembarque. Só me restava procurar um lugar para sentar, diante das quatro horas que faltavam para a chegada de M.
Empurrando o carrinho com a mala azul imensa, vou em direção a um guarda do lado de fora do saguão: estou esperando uma pessoa que chega no voo 3455, da American Airlines. Onde há um café? Não há nada por aqui, o homem responde sorrindo. E cadeiras? Também não há. Você pode usar um desses bancos para deficientes físicos, ele sugere, mas terá que levantar se alguém pedir. That’s the deal? Sigo em frente com o carrinho pelo lado de fora do saguão, desviando com dificuldade dos outros recém-chegados, e encontro por fim umas poltronas no terminal ao lado, onde me deito e observo meus vizinhos até pegar no sono: duas moças orientais conversando animadamente em sua língua, um rapaz, deitado que nem eu, colado à mala, dois negros altos, em pé, com as pernas bem abertas, segurando cartazes com nomes de passageiros. Não consigo entender a voz que sai do alto-falante. É inglês?
Quando acordo, o voo de M já desembarcou. Procuro inutilmente por ele. Os saguões estão lotados. As pessoas vão e vêm, esbarrando umas nas outras, tentando achar sua esteira para poder pegar o que é seu e deixar o mais rápido possível esse aeroporto que faz questão de expulsá- las. Do lado de fora, as filas dos táxis e vans são longas. Não o vejo em nenhuma delas. Nada disso estaria acontecendo se tivéssemos viajado no mesmo voo, penso, e antecipo as recriminações mútuas: ele, por eu ter me precipitado, comprando a passagem quando nem sabíamos se íamos mesmo viajar; eu, por ele ter deixado para comprá- la na última hora. Volto com o carrinho para o meu terminal, com a esperança de que M tenha ido me pegar lá guiado pelo número que rabisquei num pedaço de papel antes da partida. Cruzo com o guarda da chegada, que olha para mim mas não me reconhece. Não consigo acreditar que já estejamos perdidos sem sequer sair do aeroporto. Não quero acreditar: se me deixar levar, verei retrospectivamente a conexão entre muitos sinais antes invisíveis que indicavam o que só agora, sozinha na cidade, sou capaz de entender. A decisão de virmos em voos separados me parecerá um primeiro passo em falso. Pior, o fato de não haver dois lugares num mesmo vôo se mostrará com um sinal que não consegui identificar, mas que punha em dúvida o sentido mesmo da viagem. O choque da lembrança de repente paralisa o meu pensamento: combinamos que nos encontraríamos na locadora de carros. Quando chego, lá está ele, tomando um café e lendo o Los Angeles Times.
Ao ouvir minha voz, M abaixa o jornal e sorri. Depois o deixa no chão, se levanta, vem na minha direção e me abraça, como se intuísse nosso desencontro, que não menciono para não desaproveitar a possibilidade de um recomeço. Chegamos. Deu certo. Em breve, estaremos atravessando a cidade."

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