quinta-feira, 8 de abril de 2010

Terra estrangeira aqui ou ali

Em seu primeiro romance, a carioca-argentina Paloma Vidal explora a geografia da intimidade

"Sinto uma solidão terrível desde a partida de M e a necessidade de dizê-lo em outra língua: I feel a terrible solitude. Repito a frase sentada no chão do chuveiro, com as pernas esticadas, que parecem pertencer a um outro corpo. Desde que ele foi embora não saí do apartamento. Descobri que ele fez uma grande compra no supermercado; o armário da cozinha está cheio de enlatados, pacotes de macarrão e garrafas de água mineral. Desconfio que ele estava abastecendo a casa para uma possível catástrofe."


Outlook (Brasil Econômico) 1.4.2010

O que se extrai deste excerto, pinçado ao acaso da narrativa de Algum lugar, de Paloma Vidal (7Letras, 170 págs)? Que a personagem feminina foi abandonada por um incerto M, que a deixou sozinha num apartamento habitado por alimentos neutros, apátridas, e que, estranha a si mesma, só consegue exprimir seu sentimento em uma língua que não a de origem. Somente um trechinho desses nos faz refletir sobre o que seria, em 2010, o tal inzoneiro "romance brasileiro", lotado de coqueiro que dá coco – ainda mais se este for escrito por uma argentina (embora Paloma viva no Rio de Janeiro desde os dois anos de idade). Uma das boas surpresas durante a leitura deste livro é a constatação meio óbvia, mas não menos surpreendente, que o "romance brasileiro", se é que existe, pode ser ambientado em qualquer lugar do mundo.

Aqui, um casal de brasileiros vai morar em Los Angeles; mas, enquanto ele se confina no apartamento, ela se conforma às avenidas largas e desumanas da nova cidade a desbravar. Tanto aqui como lá, a narradora, cuja mãe é argentina, sente-se forasteira – mas isso não tem nada a ver com geografia; a sensação de irrealidade é de ordem metafísica, na dificuldade de apreensão de um mundo em que países e linguagens, passado e futuro têm menos contornos a cada dia. O estranhamento é tal que a protagonista ora é vista na primeira ora na terceira pessoa – o que criaria uma trama gelatinosa não fosse a escrita de Paloma partilhada com rigor sóbrio e elegante. Entre a realidade e a ficção, a terra estrangeira e a pátria, a "ductilidade espacial dos sonhos" sugere à narradora que a única solução possível num mundo que se dissolve é a vida na fronteira – metáfora que se concretiza na comovente cena final deste belo e necessário romance. (Ronaldo Bressane)

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