segunda-feira, 12 de abril de 2010

Carlito Azevedo fala sobre nova página de poemas

Responsável por editar a página mensal de poemas "Risco" (cuja primeira edição circula com o caderno deste sábado, 10/04) em parceria com a equipe do Prosa & Verso, o poeta Carlito Azevedo expõe abaixo algumas de suas ideias em relação à iniciativa e à poesia brasileira contemporânea.

O que você acha da idéia de se publicar poesia em jornal? Por que acha que a imprensa parou de fazer isso?

O que faz toda poesia que realmente interessa é avaliar, em seu momento histórico, quais as possibilidades de felicidade para uma raça que não sabe de onde veio e nem para onde vai, vagando temporariamente por um planeta onde caem raios, a terra treme e o mar, vez por outra, avança imparável em tsunamis devastadoras, e onde, pior que tudo isso junto, o semelhante que o seu coração elegeu para amar pode simplesmente dizer que não lhe ama mais e desaparecer de sua vida. É claro que nenhum poema isolado lhe dará uma resposta sobre isso, nem todos eles juntos, provavelmente. Mas não resta dúvida de que depois que esse mesmo planeta foi visitado por Sófocles, Goethe, Fernando Pessoa, Mário Quintana e Paulo Leminski, por exemplo, ficou mais fácil compreender que, para o homem, mais difícil do que encontrar a felicidade é desistir de encontrar a felicidade, e que o mais desafiante é tornar esse cenário habitável. Os jornais pararam de publicar poesia provavelmente porque o consumo dessa matéria verbal complexa, dessa negação do óbvio, desse elogio do paradoxo, tem outro tempo muito diferente do tempo de consumo de uma notícia urgente. Mas com a variedade de tempos que convivem hoje em um jornal, com seus diferentes cadernos, revistas, suplementos, e com o consequente hábito de se recortar e guardar páginas para leitura mais vagarosa, no tempo certo, também há de haver uma página onde cresça o tempo do poema. Essa concepção aliás é filha da idéia de que o tempo não evolui como uma seta em linha reta, mas cresce como pétalas de uma multiflor. Cada uma em sua direção.

A poesia brasileira contemporânea merece atenção dos leitores?
A música contemporânea merece atenção dos ouvintes? As artes plásticas contemporâneas merecem atenção dos espectadores? O teatro contemporâneo merece atenção da platéia? Como certamente todos estarão de acordo com o fato de o teatro, as artes plásticas, a música e a poesia serem coisas que merecem atenção, creio que a dúvida aí recai sobre a idéia de contemporâneo. O que pode ser traduzido numa pergunta: gostamos de nós? Para julgar uma coisa é preciso observá-la de fora, do exterior, mas como podemos nos observar de fora? Outra questão: será que vemos o que nos cerca como um desafio a ser enfrentado, que estimula a melhor parte de cada um de nós a construir o seu sentido? Ou preferimos negá-lo e assumir a síndrome do paraíso perdido, da época de ouro que não volta mais, lamentando que tudo em volta seja apenas decadência? (...)

A entrevista na íntegra pode ser lida aqui.

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