quinta-feira, 11 de março de 2010

NO PRELO: SILÊNCIO EM SIENA

Em Silêncio em Siena, Flávio Wild percorre 15 cidades europeias em fotos e contos.

Leia um trecho do conto O velho do Parc Güell
Abri o mapa de Barcelona ao pé do monte Tibidabo, procurando o Parc Güell. Um canil exalava fedor de carne e urina. Os terríveis latidos dos cães ficaram mais baixos após subirmos a ladeira. Mas o calor e o vento trouxeram o cheiro, desnorteando-me a cada passo.
Não é por aqui, Laura comentou, com os olhos cravados no caminho. Enxuguei o suor do rosto na camisa enquanto ela confirmava: estamos perdidos!
Na volta, os mesmos cães moribundos ladeira abaixo. A cor de tudo era vermelho e amarelo, a boca sem saliva. No outdoor, uma praia da Andaluzia convidava para o sonho. Apenas ali havia azul e verde.
Abordei um taxista, que mexia no motor do seu carro, para saber o caminho correto. Ah, Parc Güell... é difícil chegar por aqui, ele disse. Mas... vejam, sigam aquele velho. Ele vai para lá todos os dias.
E fomos atrás do ancião, bem devagar. Sereno, ele segurava a bengala com uma das mãos. A outra mão no quadril. As sandálias quase ocultas pelas calças sem bainha. A barba grisalha contornando a cabeça até o boné. Entrou por ruas estreitas, becos, como se o caminho a traçar naquele labirinto, menos que real sabedoria, fosse apenas um costume. Cada aroma, à beira da calçada, lhe determinava o rumo a seguir. Primeiro, a tabacaria. Demorou-se lá dentro, a vasculhar os charutos. Depois, o vendedor de crepes com sua
carrocinha branca, a quem apenas cumprimentou e seguiu. Dois escarros precederam um charuto e ele o levou aos lábios murchos com ansiedade. Soltava mais baforadas de fumaça do que passos no caminho.
Parou, segurando o fumo entre os dedos, e virou à esquerda numa longa escada-rolante. Chegar ali dessa forma era algo inusitado. Mas o velho parecia saber, ou fora atraído pelo cheiro da panadería da esquina. A escada nos levou até o nível de entrada do parque. Nenhum logotipo, nenhuma grande placa atestava o acesso. Apenas a certeza daquele velho nos conduzia, cipreste após cipreste. O calor sufocante, o ar seco, e paramos para descansar. Tentei fotografar o rosto dele com o zoom, mas estava todo na sombra.
E sumiu numa curva do caminho.

Flavio Wild nasceu em 1964, em Porto Alegre. É designer gráfico e fotógrafo. Silêncio em Siena é o seu livro de estreia.

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