quarta-feira, 17 de março de 2010

LANÇAMENTO: RASTEIRA NO CAMPO DE CANIÇOS

Suicídio com livros, de Olga Bilenky (foto: Mauro Holanda)

Leia um trecho do conto "O universo transformado em tarde de domingo", do livro Rasteira no campo de caniços, de Narjara Medeiros.

Naquela terra apartada do Brasil a presença do cigano trigueiro com cara de vampiro apertou no coração dos nativos a sensação da novidade. Até aí a Alemanha, para os loiros de Três Forquilhas, era o lugar mais desejado depois do colo de Lutero.
Para mim, além da sensação gostosa das músicas do violino, dos antúrios estendidos em suportes especiais, o cigano trouxe também o desleixo da paixão na mocidade. Sim, eu estava mesmo apaixonado pelo estrangeiro. Não parecia correto que eu, um menino, me apaixonasse por um homem feito. A natureza escolhe bem os seus pares e parece desnecessário invertê-los. Então pensei o seguinte, confiante nas leis eternas da natureza: se eu, que sou homem, me apaixonei por outro homem, então esse outro homem não era homem de fato, dado que minha masculinidade já fora averiguada tantas vezes nas horas do banheiro. Sendo assim, o cigano só podia ser mulher e, portanto, dissimulava nas roupas esquisitas os verdadeiros traços. E o embuste era perfeito. Os seios escondidos atrás do tecido de flanela bojuda, a calça de árabe forasteiro formava na região do ventre um saco largo onde não era possível distinguir a protuberância do sexo. A voz treinada para enganar, o rosto não despontava sinal de barba e os cabelos encostavam-se na metade das costas.
Em Matacavalos, égua guerrida, a estética robusta das mulheres que se atinam para os mistérios das cidades. A mulher viageira tem a cara diferente e talvez também por isso o rosto de Matacavalos fosse tão peculiar.
Se Matacavalos se confessasse mulher meu empenho na conquista seria tão grande que Matacavalos também se apaixonaria. Ele contava as histórias sobre viagens e sua voz atingia a postura exata das coisas do passado, a eloquência poderosa transformava em objeto o sonoro da palavra. Não só os ouvidos deviam estar atentos às conversações, mas sobretudo os olhos, pois Matacavalos se exaltava nas interpretações e às vezes acontecia de saltar tão alto que parecia voar. O violino encaixado no ombro intervinha enriquecendo o contorno das palavras. Eram frequentes esses encontros na saída da escola. De todos os rapazes eu era o mais extasiado e, sobretudo, o mais orgulhoso. Quando Matacavalos me contasse o seu segredo, eu confessaria o meu amor e o pediria em casamento.


Narjara Medeiros nasceu em 1983, em Rondônia. Estudou Filosofia e Botânica e escreve roteiros para audiovisual. Rasteira no campo de caniços é o seu livro de estreia.

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