terça-feira, 23 de março de 2010

LANÇAMENTO: CALCANHAR, de Laura Liuzzi



Leia aqui um poema do livro Calcanhar


Calcanhar


Vai ser assim:
entre sílabas e silêncio
poucos móveis, ângulos retos
feito a camisa dos arquitetos.
Frequentarei a janela antiga
branco amarelento da sala
e descansarei uma perna
vez outra.
Meu calcanhar.
Você repara, fotografa sem filme.
Eu não percebo,
fumo sem fumaça.
Preferimos o som da vitrola
para substituir o crepitar da lareira.
Moramos num país tórrido
abandonado por Deus.
Eu vou até a estante
não procuro, já sei qual.
Me acomodo no sofá junto ao gato
a que demos o nome de Gato.
A luminária tem o ajuste certo da coluna.
Você me beija a nuca, calafrio.
Minha boca azulada.
Você tem a blusa pra fora da calça.
Te acho lindo, lindo.
Troca o disco. Me surpreende.
This is not a love song
Vou para a cozinha.
Caminho como as francesas pelo corredor.
Aperto bem o avental,
marco a cintura.
Temos ervas frescas.
Lá na sala você sacou a rolha.
Manteiga de sálvia, você vem
– tim tim
Amanhã temos que acordar cedo.
Seu despertador não tem números.
Isso me enlouquece.
Dentro do quarto tem uma pia de louça
pintada à mão, meio campesina.
Nunca a usamos.
Vitrolas são inteligentíssimas.
Fecho a janela datada de madeira.
O gato a sono solto
dou de beber às flores.
Você me chama
eu me atraso.
Meu calcanhar.
Você me enlaça.
Acordamos todos os dias
com um relógio sem rosto.



Laura Liuzzi nasceu no Rio de Janeiro em 1985. Calcanhar é seu primeiro livro.

2 comentários:

  1. Incríivel!!!
    Belíssimo poema

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  2. Belíssimo poema mesmo! Parabéns à Laura! Sabe manejar as palavras, impor ritmo e musicalidade ao poema!

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satara