sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

SALVEM OS MONSTROS

(Foto de Ana Kemper)

Leia um conto de Salvem os monstros, de Fernando Paiva,
novo título da Coleção Rocinante


Laranjada
Foi com o nascer do sol e o clarear do dia que se tornou possível perceber a diferença. O primeiro a notar foi um remador, às cinco e quarenta e sete da manhã, enquanto trazia pelo píer um caiaque equilibrado na cabeça. Avisou ao treinador, que ligou para o clube de regatas, que ligou para o corpo de bombeiros, que disse que não era com eles; ligaram para a prefeitura, que alertou o governador, que comunicou o ministro. Nesse ínterim foi juntando gente e mais gente, curiosos por todos os lados, de todas as crenças, cores e idades. Um cordão humano se formou em volta da lagoa. Todo mundo queria ver. Alguns duvidavam dos próprios olhos, esfregavam-nos bem, fechavam e abriam as pálpebras, sem acreditar.

As equipes de tv apareceram antes mesmo das autoridades governamentais. Traziam consigo especialistas a tiracolo para comentar a notícia. As emissoras interromperam suas programações para transmitir plantões urgentes sobre o ocorrido. O país inteiro parou para acompanhar a novidade.
Não tardou para chegarem os helicópteros, pois era importante ter uma visão aérea do fenômeno. Compreendeu-se que aquilo tomava toda a superfície da água, sem exceção. E as especulações começaram, assim como a troca de acusações. Para o secretário municipal, aquilo era resultado do despejo de esgoto não tratado, culpa do governador. O secretário estadual, por sua vez, suspeitava do vazamento de algum óleo ou produto químico de alguma indústria próxima à lagoa – talvez alguma daquelas que foram atraídas pela prefeitura com incentivos fiscais.

Um biólogo de renome levantou a hipótese de o fenômeno ter sido provocado por um desequilíbrio no ecossistema. Uma determinada espécie de alga teria se reproduzido em excesso, devido à falta de predadores naturais, que estavam desaparecendo em razão da pesca predatória.

Um conceituado físico de uma universidade federal, convidado por uma revista semanal para analisar o problema, afirmou que aquilo nada mais era do que ilusão de ótica. O que vocês estão vendo não é o que se pensa que é. A água da lagoa está assim por causa do reflexo de raios ultravioleta semiderivados pela inversão térmica.

Pastores evangélicos pregavam que aquilo era um sinal do fim dos tempos. Chegou o momento de pagarmos pelos nossos pecados. É o juízo final que se inicia!

Era impossível avaliar de imediato a periculosidade da situação. Por via das dúvidas, foi proibida a entrada de pessoas na água, fossem pescadores, remadores ou turistas em pedalinhos. A interdição não prejudicou os negócios de donos de quiosques e ambulantes. Pelo contrário: devido ao fenômeno, o público ao redor da lagoa quintuplicou. Veio gente das cidades vizinhas e até de outros estados para ver de perto a transformação daquele cartão-postal da cidade.

Amostras da água foram coletadas pela prefeitura, pelo governo estadual, por técnicos do ministério, por ambientalistas e por estudiosos em geral. Era preciso analisar aquilo com cuidado. O resultado ainda tardaria algumas semanas.

Poucos dias depois, o fenômeno se estendeu às águas da baía: elas amanheceram coloridas de laranja. Isso mesmo, laranja, tal como a fruta. E meio brilhante. Os cientistas ficaram estupefatos. Ninguém nunca vira nada igual. Era uma praga contagiosa que se espalhava pelos recursos hídricos da cidade? As pessoas temiam pelo pior. Se a lagoa e a baía estavam laranja, daqui a pouco seria a vez dos rios, das cachoeiras, das praias, do oceano Atlântico inteiro. Os mais importantes oceanólogos do mundo foram convocados às pressas para viajar até a cidade. O presidente ordenou que fosse encontrada uma explicação o quanto antes. E que os responsáveis fossem punidos, de maneira exemplar, que é como se faz em qualquer país soberano que preze por seus recursos naturais.
Foi aí que surgiram os primeiros outdoors com mensagens enigmáticas. A laranja vem aí. Você não vai resistir à laranja. O mundo é laranja. E em menos de uma semana o refrigerante chegava às lojas, com seu novo sabor de laranja, uma nova fórmula, agora mais refrescante e com gosto levemente mais ácido.

As águas da lagoa e da baía voltaram ao normal. Era apenas um corante laranja biodegradável. Ninguém se lembrou de punir os publicitários. Em vez disso, eles foram premiados por sua criatividade em um festival internacional, deram entrevistas em jornais e foram recebidos até pelo presidente da república, que achou muita graça daquilo tudo. A cidade voltou ao que era antes. E o que restou foi apenas uma estranha e contagiante sede.



Fernando Paiva nasceu em 1977, no Rio de Janeiro. É jornalista e guitarrista da banda Luisa mandou um beijo. Salvem os monstros é seu segundo livro.

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