terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Adília Lopes em espanhol

Aníbal Cristobo traduz para a sua língua-mãe diversos poemas de Adília Lopes, numa série de posts dedicados à poeta portuguesa.  No more tears, Anonimato e autobiografia e A Elisabeth foi-se embora são alguns dos versos de Adília que podem ser lidos agora em espanhol aqui – confira abaixo a tradução de Um figo:



Deliciosa
Dejó caer la fotografía
un desconocido corrió trás ella
para entregársela
ella se negó a aceptar la fotografía
pero usted dejó caer esto
yo no puedo haber dejado caer esto
porque esto no es mío
no quería que nadie
y sobre todo un desconocido
sospechase que había una relación
entre ella y la fotografía
era como si hubiese dejado caer
un pañuelo lleno de sangre
porque la de la fotografía era ella
y nada nos pertenece tanto como la sangre
por eso cuando alguien se pincha un dedo
enseguida se lleva el dedo a la boca para chuparse la sangre
el desconocido se dio cuenta de eso
es un retrato suyo
puede que sea el retrato de alguien muy parecido a mí
pero no soy yo
el desconocido por ser muy bondadoso
no insistió
y como sabía que los mendigos
no tienen plata dinero para sacar fotos
le dio la fotografía a un mendigo
al que le pareció que estaba deliciosa


Adília Lopes (tradução de Aníbal Cristobo)

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Lançamento de "Minha gente: Luiz Mendes, o mestre da crônica esportiva do Brasil", dia 2 de dezembro

Nessa quinta-feira, dia 2 de dezembro, será o lançamento do livro Minha gente: Luiz Mendes, o mestre da crônica esportiva do Brasil, biografia do grande radialista. Esperamos todos lá!
Salão Nobre do Botafogo de Futebol e Regatas - Av. Vencesláu Brás, 72, a partir das 19h.



quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Thiago Camelo na III Semana de Letras da UFJF




Thiago Camelo, autor de Verão em Botafogo estará amanhã em Juiz de Fora para participar da Roda de Escritores, junto com Mauro Siqueira e Diego Grando. A prosa está marcada para as às 18h e faz parte da programação da na III Semana de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora. Literatura, internet, blogs e editoras são alguns dos temas da conversa, mediada por Laura Assis.

Confira toda a programação da III Semana de Letras da UFJF aqui.

"Amores Lado B"

No site da Blooks, Mauro Siqueira escreve uma "pequena resenha afetiva" sobre o livro Eu perguntei pro velho se ele queria morrer (e outras histórias de amor) . Leia a resenha completa sobre o livro de José Rezende Jr., vencedor do Jabuti 2010 na categoria "contos":

Li do início ao fim: General Osório-Saens Peña – sem pena, numa assentada só. Passei duas estações além da minha, mas valeu: a leitura de Eu perguntei pro velho se ele queria morrer (e outras histórias de amor), de José Rezende Jr, ed. 7Letras, livro premiado com o Jabuti na categoria “Contos e Crônicas” de 2010, me tomou por completo – há um certo tempo que buscava contos assim. É curto, direto, atinge e vence o leitor por nocaute – como diz Cortázar, ao teorizar sobre o gênero. Fui pego, ainda, pelo livro na sua bela capa e projeto gráfico, sobretudo, o seu título – o ruído causado por ele chama a atenção: “Como um título assim pode combinar o amor?”, perguntei para mim mesmo. Lembrei positivamente de outros livros que brincavam com o conceito do amor, como por exemplo o livro de Marçal Aquino, “Do amor e outros objetos pontiagudos” (e do meu próprio que vem a caminho), não pensei duas vezes ao comprá-lo, após algumas folheadas e frases escolhidas a esmo e lidas em voz alta, ainda na livraria.

Doze contos. Amores incomuns e seus aspectos idem, José Rezende Jr mostra ao leitor que há nuances e camadas outras detrás das possíveis formas de um relacionamento amoroso, ou fraterno, ou cordial, ou atemporal, ou afins; há o vermelho da paixão e/ou o rosa romântico e há também um certo amarelado e cinzento embaçamento, confundindo sentimentos e impressões, apontando para fins melancólicos, trágicos, violentos entre eles por todo o livro. O interessante para o leitor é buscar que tipo de amor há; é daí que o ruído da relação do título e seu subtítulo se justificam, nessas histórias você termina algum dos contos com essa questão, na releitura você parte em busca das respostas. Como no conto de abertura, intitulado “Eu morrendo e você pintando as unhas de vermelho”, onde um moribundo observa a futura viúva se arrumar para a noite, enquanto ele definha sobre uma cama e aos poucos nos damos conta que os seus comentários depreciativos querem nos dizer algo além. Ou na relação submissa, tipicamente asiática, do conto “Origami”, um contrato de tolerância mútua de duas tristezas mediadas pelo corpo e pelo dinheiro. Uma tristeza bem diferente da mãe  de “Um conto de horror”, mãe esta que dorme com um punhal debaixo do travesseiro, por medo do filho. E não há como não se chocar com a história de Maria de Lurdes, em que o título já antecipa o fim da história da moça que faz um esforço para agradar o namorado. Ou se sensibilizar com o resgate de um amor perdido no tempo em “Desvio; desvão” ou a discussão silenciosa de “O amor surdo, mudo, morto”. Poderia me deter em todos os outros contos – uns mais outros menos –, mas fazê-lo seria tirar do outro o prazer de descobrir por si só esses pequenos detalhes engendrados por José Rezende Jr – como no conto título. Como num tapete bem tecido, todos os contos juntos formam uma bela imagem de uma das várias formas de se ver o amor.

7 Letras no Prêmio Açorianos 2010

Flávio Wild (Silêncio em Siena) Guto Leite (Zero Um) e Escobar Nogueira (Pejuçara) estão entre os finalistas da 16ª edição do Prêmio Açorianos de Literatura Adulta e Infantil. Os dez vencedores de cada categoria serão anunciados na noite de 13 de dezembro, quando serão divulgados os destaques do ano, o Livro do Ano e a Coletânea inédita vencedora do Prêmio Açorianos de Criação Literária/Conto.

Confira aqui os finalistas do Prêmio Açorianos 2010.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

"Monodrama" no Portugal Telecom 2010

O Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa – um dos principais prêmios literários do Brasil – vai ser entregue esta segunda-feira, em São Paulo, às 20horas. O poeta Carlito Azevedo (Monodrama, 7Letras) é um dos nove finalistas da edição de 2010 deste prestigiado prêmio, que contempla três vencedores.

Sobre Monodrama, Bernardo de Carvalho destacou na sua coluna no jornal Brasil Econômico:

Se alguém ainda quiser saber para que serve a literatura, a resposta está dada: para que de vez em quando alguém escreva um poema como esse H., do Carlito Azevedo. – Bernardo Carvalho

Leia um poema de Monodrama:

Rua dos cataventos
After “grammatische konfession”
de Eugen Gomringer


Quando explodiram a sinagoga, digo, a mesquita, digo, a
discoteca, ele podia ter estado presente, ele estava presente,
ele esteve presente, ele foi considerado suspeito, ele poderia
ter sido considerado suspeito, ele poderá ser considerado
suspeito, ele colaborou, ele poderia ter colaborado, ele
vai colaborar. Bebeu o café que lhe ofereceram. Passaram a
se referir a ele como “o bebedor de café”.

Quando os conflitos de verdade começaram e tiros de grosso
calibre e até uma ou outra explosão de relativa magnitude
puderam ser ouvidos ele podia ter estado presente,
ele estava presente, ele esteve presente, ele foi considerado
suspeito, ele poderia ser um provável suspeito, ele será
arrolado entre os suspeitos, ele colaborou, ele podia ter
colaborado, ele vai colaborar, ele jogou toda a culpa sobre
o grupo, ele confirmou que ali se falava o tempo todo na
grandeza de cair em martírio, ele fez o jogo do agente duplo,
ele vai dançar conforme a música, ele vai colaborar,
ele colaborou, ele dançou conforme a música. Passaram a
se referir a ele como “o bailarino”.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Prêmio Jabuti 2010



Hoje em São Paulo será entregue o 52º Prêmio Jabuti, o principal prêmio do mercado editorial brasileiro. José Rezende Jr é o grande vencedor na categoria conto, conquistando o 1º lugar com o livro "Eu perguntei pro velho se ele queria morrer (e outras estórias de amor)"

Depois da entrega da estatueta aos vencedores, serão revelados os melhores livros editados no Brasil em 2009 nas categorias ficção e não-ficção, escolhidos por um júri formado por profissionais do mercado. 


+ Leia aqui um conto de Eu perguntei pro velho se ele queria morrer (e outras estórias de amor)

7Letras na Primavera na Cultura – SP


A Primavera na Cultura em São Paulo continua até o dia 15 de novembro, reunindo num só lugar – a Livraria Cultura do Conjunto Nacional – obras do catálogo de mais de cem editoras independentes. Além de expor uma seleção especial de títulos do catálogo de cada editora, a Primavera oferece uma extensa programação  gratuita para o público adulto e infantil. Debates, mesas redondas e encontros sobre temas ligados às Artes, Política, Literatura e Cultura são alguns dos eventos especiais dessa festa que celebra a bibliodiversidade.

Primavera na Cultura - São Paulo | 2010
De 01 a 15 de novembro de 2010, das 9h30 às 21h30
Livraria Cultura do Conjunto Nacional
Av. Paulista, 2073 - São Paulo/SP

Programação

Sábado: Lançamento de "Nona", de Erika Mattos da Veiga, em Brasília


A 7Letras e o Mercado Cobogó convidam para o lançamento do romance Nona, de Erika Mattos da Veiga.

Data: sábado, 6 de novembro, a partir das 16h
Local: Mercado Cobogó  SCRN 704/705 bloco E lojas 51/56 – Brasília

Leia um conto do livro "O professor de piano"

O cavalo

1
Com a insônia, me levantei, fui até a cozinha, bebi um copo d’água. Atravessei a sala, aproximei-me da varanda do apartamento, fiquei olhando a noite. O mar, a uns oitocentos metros, atirando-se nas areias alvas. A luz do poste refletindo nas palhas da palmeira no pátio do prédio, o fundo azulado da piscina tremendo. A rua deserta, arborizada, o asfalto comido em alguns trechos.

Notei que de um terreno baldio, perto de outro onde estão erguendo um edifício, saiu um cavalo do meio de alguns arbustos, veio andando na direção do meu prédio, os passos calmos, a cabeça, vez por outra, sondando ao redor. Achei que o dono de alguma carroça – as casas humildes do outro lado da avenida, não muito distante – largou-o na noite para um devido descanso. Um cavalo altivo, avermelhado.
Batia um vento bom e, de repente, na esquina, apontou um carro vindo dos lados da praia, entrou na rua. O cavalo, na calçada, dobrou o pescoço, observou o carro passar com velocidade, uma leve poeira partindo dos pneus.

O homem parou diante do portão de uma das casas da rua (moro aqui já tem três anos, após me aposentar como advogado, mas não havia reparado no belo jardim da casa), acionou o portão eletrônico, que foi abrindo lentamente. Em pouco tempo o homem entrou com o carro na garagem. Olhei a nuvem arroxeada se aproximando da fatia de lua, lá adiante, sobre o mar. O cavalo vinha andando pela rua, apagando-se nas sombras, sempre lento.
O homem demorou a sair do carro e a fechar o portão. Após alguns minutos, finalmente deixou a garagem escura e, esquecendo que o portão se encontrava aberto, ficou no terraço tentando abrir devagar a porta principal da casa. Pareceu não ter meios, em certo momento, de penetrar na casa, saiu para o jardim, sentou-se na cadeira de ferro, perto de um anjo alto, pôs o rosto entre as mãos. Vez por outra olhava para o primeiro andar da casa, esquecido de vez de fechar o portão da garagem, parecendo também que poderia, a qualquer momento, sair de novo para a rua. Por que não chamava alguém? Deixou a pasta (vinha do escritório?) sobre a mesinha de centro do jardim, encoberta por algumas ramas, saiu arrodeando a casa. Enquanto o homem pesquisava ali as janelas, o cavalo veio, passou pelo portão, baixou a boca, foi arrancando tufos da grama do jardim. O homem agora estava lá nos fundos, empurrando portas, espreitando paredes. O cavalo raspou outra vez a boca no chão, apanhou mais grama e foi para debaixo da sombra da pequena árvore no canto mais escuro do jardim. O homem afinal encontrou uma janela aberta, entrou na casa, veio, abriu a porta principal, pegou a pasta na mesinha do jardim e acionou novamente o portão eletrônico, que começou a fechar com ruído.

O cavalo ali na sombra, imóvel. O vento atiçando as folhas da árvore.

Lançamento de "O professor de piano", de Rinaldo de Fernandes


Em O professor de piano, Rinaldo de Fernandes dá vida a uma série de histórias e personagens singulares – num estilo que o consagrou como um dos mais destacados e talentosos ficcionistas no panorama da literatura brasileira contemporânea. Envolvidos nas suas próprias angústias, dilacerados por dramas, neuroses e violência seus personagens desfilam em contos essencialmente realistas, marcados pelo imaginário e poética urbana, surpreendentes. Nos contos de Rinaldo, o leitor é guiado pela investigação e exploração – intensa – da subjetividade do homem contemporâneo. Um monólogo interior refinado e um ágil uso do fluxo de consciência dão um sabor único a estas histórias arrebatadoras e surpreendentes.

Rinaldo de Fernandes lança O Professor de Piano em São Paulo nesta terça-feira, 9 de novembro, a partir das 19h00, na Biblioteca Mário de Andrade. Na ocasião, Rinaldo fará a palestra “O Conto Brasileiro do Século 21”. Em seguida haverá um debate com o escritor Ataíde Tartari acerca dos 11 contos que integram O Professor de Piano e a leitura de um conto do livro pelo jornalista e escritor Assis Ângelo.


Data: 09 de novembro de 2010, terça-feira, às 19h
Local: Biblioteca Mário de Andrade – Circulante – Av. São Luís, 235 - Centro - São Paulo (SP).

Apoio: Biblioteca Mário de Andrade / Secretaria Municipal de Cultura / Prefeitura do Município de São Paulo / O Cantinho Português.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Leia um trecho de "Nona", novo romance de Erika Mattos da Veiga


“Mostra! Mostra como você faz o truque” gritou abandonando as pernas soltas no ar, sustentando o peso do corpo no pescoço da negra, um cacho de flores amarelas esparramado no chão, um longo galeio para trás e a temerária brincadeira de criança alçando um inesperado voo destemido, de costas, pernas magrelas de menina defeituosamente esticadas como as de uma bailarina amadora, a saia da camisolinha inflada, branca, feito um balão, os pés, por último, afundando descalços na lama resultante do que fora vento e chuva inundando, na madrugada, o quintal, e as mãos fiandeiras da negra que buscavam contê-la, e ela empinando o rosto à maneira de um desafio, o esplendor dos cabelos louros varrendo a curta distância entre as duas rivais, e depois os pezinhos descalços marcando de lama as pedras acinzentadas compondo a extensa varanda, ganhando, emporcalhados, a cozinha, onde quatro mãos rústicas, visivelmente mais ágeis que aquelas que a perseguiam, preparavam o almoço, e ela fugindo, a barra da camisolinha suja de lama obstruindo a desordem atabalhoada dos passos em disparada rompendo a penumbra desabitada do andar térreo no sobrado, subindo o esplendor superlativo da escadaria de mármore, atravessando, no pavimento superior, magníficos cômodos iluminados pelo calor da manhã, sucessão de aposentos interligados por pares de portas monumentais, altíssimas portas que ela escancarava afastando as metades de madeira inteiriça, deixando entrar o amarelo do sol amornando o quintal, evaporando a chuva acumulada nas folhas da árvore abrigando a tumultuosa orquestra de passarinhos, restituindo firmeza à terra encharcada fixando a verdura do gramado no pátio, clarão amarelo iluminando a camisola de algodão, dois cordões desamarrados pendentes da altura da gola meticulosamente rendada, dois cordões e o evidente desleixo da gola desbeiçada no ombro, as mangas compridas escondendo ambas as mãozinhas rechonchudas afastando cortinas, descortinando portas-janela, ‘Mostra! Mostra! Mostra!’

"Nona", de Erika Mattos da Veiga


A escrita sedutora e labiríntica de Erika Mattos da Veiga enreda o leitor já nas primeiras linhas com o voo da menina de cabelos loiros aos braços de Dindinha, – menina que desperta, anos depois, em um avião, com a mão de uma comissária aterrissando em seu ombro. Em meio à miséria kitsch do aeroporto, ela embaralha memórias da infância: a mãe lânguida encerrada no quarto, os dedos artríticos da babá, o olhar reprovador do pai, as flores da árvore em frente ao seu quarto de menina, dançando numa voragem cor de laranja.
Explorando com precisão as torpezas – e belezas – e a fragilidade humana, o universo ficcional caleidoscópico de Nona encanta do início ao fim, confirmando a autora como uma das vozes mais singulares da nossa literatura.  

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Leia o livro, veja o filme

Promoção no site da editora: as primeiras 50 pessoas que comprarem o livro Como esquecer, de Myriam Campello, no nosso site ganham um ingresso para o filme, dirigido por Malu Di Martino e com Ana Paula Arósio, Murilo Rosa e Natália Lage no elenco.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Sublunar - 2ª edição


Já saiu a 2 ª edição de Sublunar, de Carlito Azevedo. O livro reúne a produção poética do poeta carioca ao longo de 10 anos, publicada originalmente em seus quatro livros esgotados: Collapsus Linguae (vencedor do Prêmio Jabuti), As banhistas, Sob a noite física e Versos de circunstância.  Esta 2ª edição surge com uma cara nova: idealizada pelo pelo próprio Carlito e Valeska de Aguirre a capa mostra uma imagem do espetáculo “Formas Breves”, de Bia Lessa e Maria Borba. A fotografia é de Marcella Garbo.

Fique com um vídeo em que Carlito lê os poemas "Vaca negra sobre fundo rosa", "Sobre portas" e "Uma tentativa de retratá-la", todos de Sublunar :

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Leia um trecho de "Como esquecer", de Myriam Campello

Aqui Virginia se matou, murmuro.
Antônia e eu estamos ante as águas verde-geladas do Ouse, o rio abstrato que finalmente se tornou real. Minhas palavras não dizem nada de novo, são para mim, tentando dar concretude ao fato de estar no cenário da tragédia que me acompanha há tanto tempo. O rio é pacífico ao atravessar a cidadezinha, e guarda em suas profundezas como um segredo de amor o dia em que Virgi­nia Woolf vestiu sua roupa de algas e peixes. Faz frio em Lewes, e eu e Antônia estamos um pouco distantes uma da outra, silencio­sas. Aparentemente dissociadas pela força do lugar. Como duas estranhas. Não nos entreolhamos sequer. Não é necessário.

Não era necessário. O que fazer com essa lembrança? Eu jamais deveria ter ido à Inglaterra com Antônia. Temos que ser avaros com as tessituras subjetivas porque delas dependem nosso oxigênio. O manual de sobrevivência na selva diz que certos lugares não devem ser compartilhados, pois se torna impossível resgatá-los depois sem contaminações. É um erro misturar os mitos pessoais com o ser amado. Mas sem dúvida é igualmente difícil viver tangido pela fatalidade futura, que ainda não existe. Que não é visível mesmo do mais alto pico de sua existência no momento. A caminho do trabalho, olho da janela do táxi a lagoa petrificada no gelo. Silhueta dos morros, céu e água me espiam cautelosos, perdidos em algum ponto de mim. Olho mas não a vejo. A irrealidade congela a paisagem. Mesmo as garças fitando imóveis o Sião parecem proibidas. À distância, os remos bri­lham no ar e afundam-se na massa líquida sem um som. Onde foram parar meus suprimentos antiescuridão? 

Volto para casa e assim que abro a porta vejo Lisa no sofá, enrodilhada como um pano de chão fora de uso. Um pacote estaria mais inteiro. Com um monossílabo ela varre o meu cum­primento para longe, quer tudo menos conversa. Não vi quando chegou ontem – tarde, pois até meia-noite eu e Hugo ríamos na cozinha da novela onde ele fará o sórdido filho do fazendeiro. Tudo bem para mim, não sou a mãe de Lisa. Dividir a casa com outras pessoas pode nos dar certas alegrias, um conforto pelo calor de rebanho. Mas é também uma perturbação contí­nua. Nada mais explosivo do que ter um ser humano por perto com suas emanações, seus medos, e desejos que nem sempre entendemos.

Depois de comer um sanduíche na cozinha, me enfio no quarto. Quero fugir do venenoso sofrimento que zumbe ali perto. É mais sábio ficar longe dos estilhaços dessa dor quando já tenho meus próprios enigmas para enfrentar. Mas a paz não é deste mundo. Mal o céu do computador se ilumina, a música invade o quarto como uma horda belicosa. Depois do incômodo inicial, decido firmemente que posso sublimar aquilo e engal­finho-me com o cânone literário ocidental. Mas a banda, que não quer saber de sutilezas, escoiceia minha atenção desprote­gida. Sou um rato afogado na música que vem da sala em ondas sucessivas. Estamos aí, gente boa, berra ela com a inconsciência jovem de quem só quer existir. Fecho os olhos e repito para mim mesma que o barulho é apenas um traço desse mundo ilusório. Não tem existência real. Um monge budista sequer o ouviria.

lançamento de "Como esquecer "

Qual é o contrário do amor? O final de uma relação lança Julia diretamente para o vértice da espiral da dor. A separação divide a vida desta professora de literatura em dois abismos, o antes e o depois – o presente é um cenário de desolação e perplexidade, em que Julia tenta reconhecer (e reconstruir) o seu mundo, assombrado pela ausência do ser amado. Mais do que um romance sobre a perda, experiência comum a todos nós, Como esquecer explora as fronteiras entre o eu e o outro, e a capacidade de renovação e transformação presente no cenário interior – por mais devastado que esteja – de todos nós.


Como esquecer,  de Myriam Campello, inspirou o roteiro do filme homônimo, que estreou dia 15 de outubro nos cinemas. Dirigido por Malu Di Martino e contando com Ana Paula Arósio, Murilo Rosa e Natália Lage no elenco, o filme foi uma das atrações do Festival do Rio 2010.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Tunga na Piauí de outubro



A edição de outubro da revista piauí traz a matéria “Dentes descabelados”, sobre o artista plástico Tunga, escrita por Bruno Moreschi. Confira abaixo o trecho em que o crítico Felipe Scovino fala sobre a entrevista que realizou com o artista para seu livro Arquivo contemporâneo, publicado pela 7Letras em 2009.

[...]
O crítico Felipe Scovino foi certa vez à casa de Tunga, no Rio de Janeiro, para uma entrevista. Arriscou uma primeira pergunta longa e cheia de termos como “arte”, “vida” e “violência”. O artista respondeu: “Não vejo pergunta no seu enunciado, mas uma sucessão de acepções e apreciações que você faz tanto à vida quanto ao mundo cultural. Não saberia o que responder.”
Scovino quis saber se considerava a arte contemporânea “uma conjunção de experiências caóticas”. Tunga discordou: “O que você está chamando de arte contemporânea é um fenômeno que acontece dentro da sociedade ocidental, num circuito determinado de uma cultura, que envolve museus, colecionadores, críticos, imprensa. Isto é um grão perto daquilo que é o exercício da subjetividade da sociedade ocidental contemporânea. Falar do homem e da existência a partir desse pequeno grão me parece restrito.”
Nas outras 25 respostas, Tunga respondeu sempre de maneira agressiva e taxativa, com frases como “fico perplexo porque nunca vi essa história da arte que você está me relatando” e “você parte de pressupostos com os quais necessariamente não concordo”. Scovino conversou com Tunga para seu livro Arquivo Contemporâneo. Lançado no ano passado, ele reúne entrevistas de treze artistas brasileiros – todos bem mais cordiais do que Tunga.
Nove meses após o encontro, Scovino lembrou: “Tunga me colocou numa posição de pensar nos meus próprios critérios. Ele tem uma capacidade de não responder sua pergunta, mas, mesmo assim, falar coisas pertinentes.” Para ele, uma conversa com o artista é “uma alegoria de um jogo de xadrez. Você escolhe: entra no jogo e duela com ele, ou desiste e escuta o que Tunga tem para falar.”
[...]

Leia a matéria na íntegra no site da piauí.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Poesia brasileira 1980-2010: processos e percursos


O Seminário Poesia Brasileira – 1980-2010: processos e percursos, realizado pela Puc-Rio, pretende discutir tendências e transformações da poesia brasileira nas últimas três décadas, pensando a sua produção em diálogo com as tradições que a antecederam.

O evento ocorre entre 29 e 30 de setembro no Auditório Pe. Anchieta, na PUC- Rio, e conta com as participações dos poetas da 7Letras: Eucanaã Ferraz, Marcos Siscar, Marcelo Sorrentino, Heitor Ferraz, Ericson Pires, Carlito Azevedo, Augusto de Guimaraens e Domingos de Guimaraens, Alice Sant’Anna, Ismar Tirelli Netto, Mariano Marovatto e Lucas Viriato.




quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Entrevista de Thiago Camelo para o jornal "O Fluminense"




Thiago Camelo conversou com a repórter Flávia Custódio sobre seu livro Verão em Botafogo. A entrevista foi publicada ontem, 21 de setembro, no jornal O Fluminense. leia abaixo um trecho da matéria, ou clique aqui para ver na íntegra.

POESIA EM PIXELS
Thiago Camelo fala da sua estreia no mundo literário com a obra Verão em Botafogo, que promete reunir imaginário, memórias, fatos reais, traumas, sonhos e cotidiano
por Flávia Custódio

Aos 27 anos de idade, o carioca Thiago Camelo acaba de lançar seu primeiro livro, Verão em Botafogo. Formado em jornalismo e em cinema, ele escreve poesias que revelam seu cotidiano nos diversos bairros da cidade em que já morou, como a Barra, Copacabana e Jardim Botânico. Mas é do bairro de Botafogo que veio a inspiração para o blog (www.veraoembotafogo.blogspot.com) que abrigou as primeiras poesias de Thiago e que deram nome ao livro, lançado este mês pela editora 7Letras. Nesta entrevista, Thiago fala de sua estreia no mundo literário com a obra, que promete reunir imaginário, memórias, fatos reais, traumas, sonhos e cotidiano

Você cursou jornalismo e cinema. De alguma forma esses cursos te ajudaram a se tornar escritor?
O hábito de escrever diariamente ajuda bastante, claro. Tenho um apreço danado pelo português, uma paixão mesmo. Um interesse profundo até mesmo pelos meandros da língua - da gramática oficial ao chamado “português brasileiro”. Mas, no fundo, não saberia dizer ou apontar coisas específicas que me ajudaram a encontrar o mínimo de inspiração para escrever um livro. Não apontaria o cinema, por exemplo, como responsável. Não apontaria a própria literatura como responsável. Ou a música ou o que quer que seja. É mais uma influência de tudo o que eu vivo, né? De memórias a imaginários, passando por fatos reais, sonhos, traumas até chegar ao cotidiano mais cotidiano.


Você sempre quis escrever livros? E poesia em particular?

Acho que sempre quis escrever um livro. Nunca tive certeza se conseguiria. Isso não quer dizer que eu sempre quis ser escritor. A minha ideia era conseguir, por meio de uma fala minha, contar uma história. Sempre gostei muito de escrever, muito mais até do que de ler. Sobre a poesia, não, nunca pensei em escrever poesia. Aliás, “saiu” um livro de poesia. Eu tinha muita coisa escrita já. Contos, poemas, pensamentos etc. Só que acabei gostando primeiro de um formato de poesia que achei para mim. Daí, só depois de ficar minimante satisfeito com o que escrevia, passei a publicar no blog. A editora gostou, houve o contato e está aí o livro. Foi tudo meio por acaso, na verdade. A ideia inicial era mostrar, compartilhar um pouco minha visão de mundo no blog. Até hoje não sei direito por que publiquei estas poesias. Provavelmente foi por vaidade, por necessidade de afirmação, para conseguir alcançar o outro com um sentimento meu.


Leia mais no site d'O Fluminense

terça-feira, 21 de setembro de 2010

"A Casa dos Outros" premiado pela UBE-RJ


A obra A Casa dos Outros, do estreante Marcílio França Castro, recebeu o primeiro lugar no Prêmio Clarice Lispector, categoria de contos do Prêmio Literário Internacional da UBE-RJ.

Leia a seguir um pequeno trecho da narrativa que dá nome ao livro:


Sempre imaginei, de modo nada original, que a memória de Peraus me levaria a um romance. Há cerca de quinze anos, na época em que Estela e eu éramos apenas amigos de faculdade (mas com sua alegre fúria ela se apaixonava pela promessa de escritor que vira em mim, e que eu, não refutando, acabava por alimentar), cheguei a esboçar um plano e reunir algumas notas. Era o esforço de pôr no papel, pela primeira vez, as impressões de um mundo que (ainda não me dera conta) estava prestes a desaparecer.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Chacal no "Entrelinhas", da TV Cultura

Chacal foi tema de reportagem do programa Entrelinhas, da TV Cultura por conta do lançamento de Uma história à margem. Confira a matéria abaixo.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Entrevista de Chacal no blog Máquina de Escrever

Chacal deu uma entrevista para Luciano Trigo, autor do blog Máquina de Escrever, publicada nessa terça-feira, 7 de setembro. No bate-papo o autor fala, entre outros assuntos, sobre seu novo livro Uma história à margem e o papel da poesia ontem e hoje. Clique aqui para ler.


segunda-feira, 6 de setembro de 2010

taxiando

"noite. escuro. frio. madrugada. silêncio. um-motor-ligado. um carro me esperando para a longa jornada. vez por outra, algum carro risca o ouvido. o som no presente deixa seu rastro na memória. o passado do presente ainda tátil. de novo o silêncio. outro carro risca o silêncio. pelo jeito, um ônibus. já é passado.
imagens acústicas. acontecendo no tempo. o-motor-ainda-ligado. só ele e o silêncio frio da madrugada. um carro me esperando para a grande jornada para dentro da minha memória em busca de mim. quem é eu? quem sou mim? um-motor-ligado. a porta do carro fecha. o motor acelera. o carro parte.
silêncio. não fui naquele carro. ou fui? um-motor-ligado.

o som é sempre um clarão no escuro do silêncio. imagem acústica. imagem acústica que muitas vezes se superpõe a outros inúmeros infinitos ruídos no silêncio. sons superpostos. que se emaranham a pensamentos feitos de palavras. que também riscam o silêncio do cérebro no meio da noite fria. e no meio do dia quente? imagens acústicas emaranhadas, engalfinhadas, se amalgamam com imagens visuais. imagens visuais que podem ser a imagem de são jorge ou o metralhar da janela de um ônibus. de um trem. de um trem-bala. às vezes som e imagem parecem se sincronizar quando vemos alguém falando. falácia. embora o som saia daquela boca que o produz, o som nos risca o ouvido e a imagem, o olho. não tem nada um com o outro. ou tem? se vc der três pulinhos e pedir pra são longuinho, a memória, que vc perdeu num jogo na noite anárquica, a memória pode aparecer (nica era o nome dela? ou dico?)?

um-motor-ligado no meio da noite fria, vazia, silenciada. outros motores riscam o asfalto da noite. outros seres empreendem a jornada. entre o passado e o futuro. entre o futuro e o passado. tudo-no-presente. tudo-no-presente. tudo-no-presente. o som que risca o silêncio aqui, agora, deixa um rastro na memória e vira linguagem. o silêncio não aparece. nada aparece. está escuro e silêncio. apenas o-motor-ligado me esperando para a longa jornada. aos seios de duília? melhor não. uma tumultuada, uma indecifrável jornada para dentro de mim. da linguagem. da minha linguagem. da minha vida. um-motor-ligado me espera no silêncio da noite. tudo escuro. o-motor-ligado e uma porta de carro que fecha. o carro parte. e risca o silêncio. acende a linguagem. eu continuo aqui. ou não?

agora não há mais noite, silêncio, frio, madrugada, carro, motor, ponto e vírgula. melhor assim. mato a linguagem no peito e escorro pro chão. vamos nessa, querida? partimos."

Trecho do livro Uma história à margem, de Chacal

Lançamento : 5ª feira dia 9/09, na Travessa de Ipanema

Lançamento de "Uma história à margem", do Chacal, no Rio

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Poemas de "Confissuras"


Leia abaixo uma pequena seleção de poemas do livro "Confissuras", de Michel Klejnberg.

fernando


o teu nome na minha língua
o tamanho do teu nome na minha língua
acho que o tamanho do teu nome nem cabe na minha língua
ou o tamanho do teu nome é o tamanho da minha língua
eu não sei como se diz
é um nome grande
fala de reis e campos e pessoas
fala de uma irmãzinha minha portugalzinha que mora longe
lá no começo do mar
lá onde tudo o que é poesia
veio dar na areia da praia de ipanema
ah fernando, se tudo fosse muito menos bonito



bruxa má


-esqueceu como se escreve?
ri a folha, branca de neve.


e o poeta:
- espelho, espelho meu
existe alguém no mundo mais impotente do que eu?



haikai para hiroshige


tokyo a kyoto
outro lado do mundo
lá do mundo do outro

Lançamento de "Confissuras", de Michel Klejnberg

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Trecho de "Diário Vazio"


João é mais um rosto no retrato de uma jovem zona sul carioca, tão distante do glamour do passado em meio à decadência e à violência urbana. Entre festas e farras, a  juventude de João escoa, vertiginosa, até a maturidade, quando seus sonhos se chocam com a realidade mesquinha ao redor. Descobertas e perdas pontuam sua passagem para a vida adulta, até que um atropelamento o força a parar e repensar sua história. O ritmo fluido e o imaginário vibrante da literatura beatnik ecoam ao longo deste romance de formação, traduzindo a busca desenfreada por todo tipo de euforia, barato, emoção. Rafael Leiras expõe os ritos de passagem, os erros e acertos de um grupo de jovens de classe média, escancarando o vazio existencial de uma geração embalada a drogas, música pop e (des)ilusão.

Leia abaixo um trecho selecionado do romance de estreia de Rafael Leiras, "Diário Vazio":

"Terminou o primeiro semestre de aulas na faculdade, mas não havia nada realmente interessante a escrever sobre isso. A universidade era um reflexo do mundinho em que fingimos viver: veteranos disputando o troféu de babaca do ano, calouros arrogantes metidos a gênios precoces, burocratas disfarçados de professores. Além dos personagens corriqueiros: vagabundas, bichos-grilos, patricinhas, nerds, esquerdistas radicais de butique, viciados, bichas enrustidas, pseudointelectuais. Em torno dessa fauna girava o teatro de vaidades com dezenas de jovens atores canastrões reunidos, todos com seus pequenos egos inflados pela conquista de uma vaga na conceituada instituição. Grande merda. Confesso que algumas vezes sentia um impulso quase irresistível de explodir uma bomba no auditório lotado, durante uma daquelas palestras insuportáveis de alguma sumidade do jornalismo. Mas tudo bem, eu sobreviveria. Não cometeria um desatino. Quatro anos não demorariam tanto assim. Depois, adeus. Faculdade nunca mais.

Não esperava mesmo grande coisa quando pisei pela primeira vez naquele equívoco arquitetônico na zona norte do Rio, vizinho do estádio do Maracanã. Desde o primeiro dia tudo me pareceu uma grande farsa. Impossível esquecer de uma sexta-feira na segunda ou terceira semana de aula, após aquele lapso de tempo que os veteranos usavam para fazer os calouros acreditarem que estavam livres do trote. A turma inteira caiu na cilada. Era a data marcada para a festa de boas-vindas, organizada pelos veteranos com o dinheiro arrecadado por nós. Estava animado com a perspectiva de uma noite regada a álcool e moças com pose de futuras jornalistas. Só me dei conta de que tinha caído na armadilha quando, no fim da última aula, um veterano entrou na nossa sala e pediu licença ao professor para dar uma palavrinha aos novos colegas:

– Oi, pessoal. Hoje, vocês devem se lembrar, é dia da nossa festinha. Mas antes teremos outra atividade. Quando a aula terminar, podem esperar aí mesmo, sentadinhos e comportados. Até logo!
 

satara