segunda-feira, 28 de maio de 2012

Lançamento revista Lado7 #3 em São Paulo


Este sábado, dia 2 de junho, a 7Letras estará em São Paulo lançando a revista Lado 7 #3 e os seguintes livros:

Rapapés e apupos, de Bruna Beber
Furta-cores, de Cristina Parga
Shazam, de Jorge Viveiros de Castro
Atacama, de Maria Cecilia Brandi,
Correnteza e escombros, de Olavo Amaral
O afeto ou caderno sobre a mesa, de Sabina Anzuategui


Local:  Livraria da Vila – Alameda Lorena, 1731, piso superior – São Paulo
horário: das 16h às 19h

"Atacama", de Maria Cecilia Brandi


Ao percorrer as páginas de Atacama, o leitor é transportado de seu confortável lugar de espectador para o território árido, perigoso, belo onde vibra sua poesia. Madri, América do Sul, Amsterdã são alguns dos cenários percorridos nesta escrita-viagem que, elíptica entretece narrativas, enquadramentos e diálogos – fundindo diferentes gêneros e estruturas em poemas vibrantes.
Cada linha molda a matéria volátil das emoções, modulando-as numa espiral de tensão, que se expande quando menos se espera, surpreendendo em sua força. Pequenos flagrantes do cotidiano são peças fundamentais neste tabuleiro poético, onde a autora experimenta, com habilidade no pulso e ousadia na voz, diferentes formas, temporalidades, gradações.
Com sensibilidade e precisão, os versos de Maria Cecilia desnovelam nós, revelando o que há de mais intenso, sereno e dolorido na cena mais comum – como só a verdadeira literatura é capaz de fazer.



Cité
Geometria secular desatropela hoje
as   pessoas   as coisas   a vida

Retas irradiam de circulares boulevards:
sóis que iluminam na terra

Metrópole cortada por cena do advogado
descalço lendo Huxley à beira do rio

Ritmo lento e duro esconde
velocidade subterrânea

Ruas que não renovam onde
o pêndulo suspenso foi em outra direção

Essência forte ou nada em finos corpos rosados
sobrepõe cheiros de vida acumulada

terça-feira, 17 de abril de 2012

"Correnteza e escombros", de Olavo Amaral

Em Correnteza e escombros, Olavo Amaral apresenta uma série de histórias que, esmiúçam o fantástico e dissecam os mais urgentes sentimentos e anseios humanos. Desejo, solidão e medos são temas explorados a fundo com sensibilidade e um olhar agudo sobre o íntimo do homem, com tudo o que há de mais comovente e assustador que lhe é característico. As narrativas curtas de Correnteza e escombros primam pela alta tensão psicológica, que cresce página a página e culmina em reviravoltas surpreendentes. Com uma escrita hábil e uma linguagem simultaneamente clara e rica, Olavo Amaral se destaca como uma das vozes mais autênticas e originais da produção literária contemporânea no país.

Leia aqui o conto "Superfície":

Viu-se cercado de repente pelo terror do movimento. Não chegava a compreender ainda o que deixara do outro lado do vidro, mas olhar de volta para dentro do aquário trazia um misto de dor e nostalgia encharcada de algo que ficava para trás. E depois de um período de transe confuso, em que tentou ainda permanecer, senão em contato com a água, pelo menos em sua cercania, foi arrastado pelo ruidoso fluxo da superfície: a tosse do guarda, a conversa das pessoas que o julgavam insano ao vê-lo ali parado, por fim a sineta que anunciava o fechamento do zoológico. Na rua, a velocidade dos carros quase o derrubou: resquícios da imobilidade ressurgiam no seu corpo em lapsos, e foi por detalhe que escapou do trajeto dos para-choques. Tomou o rumo de casa não soube bem como, pois não se lembrava de alguma vez ter estado lá. Mas mesmo a inexplicável certeza dos passos não impediu o desvio para um mergulho no Quai de la Tournelle, sob o olhar de um casal de bêbados indiferentes.
Em casa, a mulher que ele adivinhou ser sua recebeu-o com óbvio estranhamento, mas preferiu nada comentar. Trouxe roupas secas, pendurou as molhadas em frente ao forno e deixou o prato sobre a mesa, indo dormir receosa: não era a primeira vez que o marido se perdia em algum lugar da Rive Gauche e voltava sem uma boa explicação. No outro dia, na hora do café, ele comeu os sanduíches de queijo com apetite, mas não sem se perguntar por que não devorava também os insetos pendurados no teto do estúdio. Ao sair de casa, surpreendeu-se com sua convicção ao explicar à mulher que ia a um escritório que sequer sabia onde era; uma vez do lado de fora, no entanto, sua vontade foi mais forte e arrastou-o de volta ao aquário do Jardin des Plantes.
Lá chegando, deixou-se ficar inerte em frente ao antigo lar por horas. O silêncio úmido do corredor e o contato firme da barra de ferro contra o corpo traziam-lhe algum alívio, mas aquilo pouco representava frente à angústia de não mais pertencer ao lado de dentro. Por mais que tentasse, não conseguia retornar à paz que outrora o cercara: o menor dos sons o atormentava, fosse o gotejar da umidade nas paredes de pedra ou os tênues rugidos das feras no outro extremo do parque. Ao mesmo tempo, sabia que o sofrimento era mútuo, adivinhando o mesmo desespero, ainda que submerso e silencioso, nos olhos dourados da salamandra que o observava imóvel, com o corpo estirado contra a face oposta do vidro.
 

satara