sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Shazam




Que a fantasia seja colorida. Ou de outro planeta. Ou mesmo se algum acidente bizarro – como a picada de um inseto radioativo – de repente acontecer.
O mais importante é também o mais fácil: a identidade secreta. Quando ela disfarça a fantasia, qualquer um de nós pode ser o herói. Às vezes basta apenas descobrir qual a palavra mágica, e – shazam! – revela-se num raio a chave de todos os abracadabras. Então partimos invulneráveis num voo infinito, consertando o mundo e as injustiças.
Talvez cada um tenha sua própria e única palavra (repito baixinho, shazam!, ou exclamo em alto e bom som chamando a chave que não acho, ou grito em silêncio, shazam, shazam!, enquanto não aprendo o som exato, antes que seja tarde), e possa o impossível ao dizê-la. Talvez bastasse saber qual fosse, sem jamais proferi-la – e mesmo assim tudo estaria dito nesse silêncio contido, todas as canções e frases e acontecimentos e histórias, todas as combinações de possibilidades e todos os universos paralelos ou alternativos, reais e imaginários, que pudessem ser narrados. Talvez no silêncio desta palavra jamais descoberta esteja o instante mágico da epifania ou da transformação que nos revela por dentro: como não se diz.


Trecho do livro Shazam.

"Furta-cores", de Cristina Parga


Furta-cores é um daqueles livros que não é apenas para ser lido: é para ser saboreado a cada releitura, em todas as suas texturas, cores, perfumes e sons. Os contos de Cristina Parga nos levam a redescobrir o gosto da língua, num percurso pelas mais íntimas paisagens estrangeiras – revelando com delicadeza os encontros e desencontros entre as mais diversas solidões humanas.

Leia um conto de Furta-cores

O sol estoura as cores do vestido rosa, reflexos brilhantes. Tento tocar meu corpo mas o tecido se desfaz ao contato dos dedos, prata faiscando desfarelando em purpurina pálida. Os pés dançam inconscientes pela casa, pontas de bailarina em sapatilhas de cores pastéis, doces e doidas. O tom suave de gosto artificial, aspartame ácido no fundo da boca. Quando o açúcar se dissolve resta a química, ardendo fria a ponta da língua.

No torpor lisérgico, as cores invadem, embalam, encantam. Azul, rosa, roxo. Lilás como algodão-doce, adstringente como a alfazema. Rosa como o halls light morango, subindo cítrico na garganta. Azul dormonid, dissolvendo-se amargo no céu da boca.


Azul como aquelas hortênsias. Pequenas flores azuis do campo naquele jardim estranho de final de ano. As hortênsias azuis chamando à noite, úmidas na sua textura sonolenta, indecisa. Os casais dormiam nos outros quartos, ela descia descalça as escadas para o jardim madrugada adentro. A umidade colava o vestido à pele.


As flores chamam, mas ela não sabe o que elas dizem. Sem saber ela deita na relva molhada e esquece, todos dormem e ela acorda, pétalas úmidas do sereno, macias, aveludadas e suaves ao toque dos lábios. Acorda descalça na cama, os pés sujos de terra e o vestido rosa de manchas roxas e azuladas. Acorda sozinha. Acorda sem saber.

Lançamento de "Rapapés e apupos", de Bruna Beber

Rapapés & Apupos reúne poemas escritos por Bruna Beber entre 2000 e 2005. Num formato especial (12x18), a nova aquisição da série de poesia da 7Letras traz poemas como “Paulo do almoxarifado”, “discotecas help” e “A paixão é uma altura”, acompanhados por desenhos de Francine Jallageas. Publicado originalmente numa tiragem numerada de 50 exemplares pela Edições Moinhos de Vento, em 2010.

Leia um poema de Rapapés e apupos:

Paulo do almoxarifado

meu coração marinheiro
e sertanejo quer rimar
amor com barco, cheiro
de mar e cheiro de mato
com moda de viola
e garrafão de vinho
ser pirata no farol
e na roça
pra dentro
pra fora
duma moça prendada.
 

satara